Onde mora a honestidade

As a new aspect of the blog, I’m going to post some things only in their original form, such as fiction and personal tales. The reason is mostly for fidelity’s sake and because I’m not a professional literary translator, although there will be cases where I do translate such stories. The story below, titled “Onde mora a honestidade” (by Martins D’Alvarez), is the first in Portuguese only. I found it in (you guessed it) the Revista da Semana of Jan. 14th, 1950. It’s about a woman who goes for a stroll in her beautiful city, loses something along the way and, later, meets kind people.

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Aconteceu que naquele domingo ensolarado de janeiro, Dona Celina teve saudades do mar. Um desejo esquisito de virar a página lida e relida de seu ambiente suburbano. Necessidade humana de espairecer um pouco, longe da chatice do bairro e dos mexericos da vila. E neste amável disposição, meteu-se num vestido level, apanhou a bolsa e pegou o primeiro ônibus que passava.

Logo ao entrar na Glória, a Praça Paris era uma tentação. Não resistiu. Calcou o botão da campainha e saltou. Cedendo ao primeiro impulso, foi debruçar-se sobre a Guanabara. Estirou os olhos sobre as águas imensas. Deixou que a brisa marinha lhe entrasse pelos pulmões. Distraiu-se com a ginástica elegante das gaivotas. Perdeu-se no infinito com um navio que dobrava a curva do horizonte. Só regressando, quando se cansaram todos os marujos que gritavam na ancestralidade de seu sangue.

No alto, o céu era uma deslumbrante água-marinha. Mas o fraco de Dona Celina era o verde. Aquele verde caprichoso que explodia em nuances variegadas nos jardins ga Glória. Por isso, foi caminhando devagarinho. Acariciando com a vista aquele ambiente de cartão-postal. Esculturas bizarras feitas com folhas. Fícus, em todos os tamanhos, afetando as mais diversas figuras geométricas. Grama trabalhada como verdadeira pintura decorativa. Flores, numa orgia colorida, rebentando por toda parte. E, atrás de tudo aquilo, desconhecido e anônimo, o artista, o escultor, o poeta que, para ter o direito de viver num porão de cortiço, obrigava-se a manter o enganto e a graça daquela jóia que a cidade ostentava sem perceber.

Por fim, Dona Celina sentou-se para admirar o espectro solar bricando na impetuosidade dos repuxos. Enlevada, se deixou por ali um tempo considerável. Até que a algazarra das crianças e a sencerimônia dos namorados empurraram-na de volta. Somente quando o ônibus já rodava perto de casa, Dona Celina deu conta de si, ferrenteada por um bruto susto. Onde estava a sua bolsa? A bolsa, com o dinheiro para pagar o ônibus, onde ficara? Afobou-se. Procurou aos lados. Incomodou o companheiro de banco e os vizinhos. Não estava…Não achava…Ninguém vira! Aflita, já não importava a perda da rica bolsa de crocodilo, mas sim o dinheiro do ônibus que com ela se fora. O cobrador do veículo, acostumado àqueles pequeninos dramas, não se comovia. O seu ar irônico parecia mesmo advertir: — “comigo esse truque não cola mais!” Todo mundo indiferente à angustia que se apossava totalmente da atribulada senhora.

E o tempo correndo. O ônibus engolindo as quadras e o poste de parada de Dona Celina se aproximando. Intimamente a passageira suplicava a Santo Antônio tirá-la daquele vexame. Que diria ao chofer na descida? O cobrador daria escândalo, com certeza. Os passageiros ririam de qualquer desculpa que desse. Mentalmente ia contando as quadras finais: ante-penúltima…Penúltima…Última!…A sua tradicional vergonha se preparava para cair por terra. Quase não teve alento para fazer o sinal de parada. Foi quando o cavalheiro que ia ao lado (ainda há cavalheiros nestes tempos plebeus) disse-lhe baixinho e sem ênfase: — “Minha senhora, eu também vou saltar! Permita-me que lhe pague a passagem!” A passageira respirou. Foi como se saisse de um pesadelo. Ficou tão surpresa e comovida, que mal pode articular, entredentes: — “Ah! como lhe fico agradecida!”

Antes de Dona Celina entrar em casa, foi logo desabafando para a vizinhança. Perdera a bolsa! A sua linda bolsa! A sua linda bolsa de crocodilo legítimo, fora-se com o que tinha dentro: dinheiro, papéis importantes, chaves, tudo! Os vizinhos alvoroçados lamentavam e Dona Celina aproveitava para fazer novela: — “Desconfio que fui roubada. Enquanto passeava à beira-mar, tenho ideia que alguém me seguia. A bolsa estava aqui!…” E Dona Celina, no auge do entusiasmo, concluiu em surdina: — “São capazes de roubar-nos a calça sem tocarem no vestido!”

Eram quase 8 horas da noite. Todas as chaves que arranjara não serviam. Já pensava até em arrombar a fechadura do guarda-roupa, quando a campainha da rua tocou. Ao abrir o postigo, um cidadão indagou: — “É aqui que mora Dona Celina?” — “Está falando com ela!” — “Eu desejava saber se a senhora perdeu alguma coisa na rua”. — “Perdi, sim senhor, a minha bolsa de crocodilo. Por quê?” — “É porque eu a achei, minha senhora!” Dona Celina rapidamente abriu a porta, convidando amável: — “Entre, por favor, cavalheiro!” Um jovem, modestamente vestido, penetrou, estendendo algo embrulhado num pedaço de jornal. Dona Celina, rasgando o envolucro, reconheceu a sua linda bolsa, enquanto o moço advertia: — “A senhora abra e veja se está tudo certo”. Dona Celina, se desmanchando em agradecimentos, quis protestar, mas foi abrindo. Dentro, tudo em ordem. Inclusive os sessenta cruzeiros em cédulas de cinco. — “Ah! o senhor vai me permitir; esta importância lhe pertence!” O moço abanou a cabeça: — “Absolutamente não, minha senhora!” Dona Celina calou, afetando não melindrá-lo, porém ao suplicou-lhe que se sentasse um pouquinho, aceitasseao menos um café. E enquanto servia a xícara fumegante, perguntava: — “Como adivinhou que a bolsa era minha? Quem lhe deu o meu endereço, se nada disso existe dentro dela?” — “Existe, sim senhora! Seu nome e seu endereço estão aí, nas costas de um santinho que lhe ofereceram!” — retrucou o jovem. Dona Celina conferiu. Era supreendende aquele rapaz. Não pode reprimir a admiração: — “Gostaria de ser sua amiga. Faço questão que o senhor frequente a minha casa. Venha qualquer dia almoçar ou jantar comigo!” — “Obrigado! Infelizmente eu não posso vir!” — respondeu o jovem com certa humilidade na voz. Sem forçar uma indiscrição, Dona Celina procurou ser reconhecida de outra maneira: — “Bem! Já que não pode vir aqui, faço questão de conhecer a sua família, de visitá-lo, se me permite!” Visivelmente confuso, o moço novamente respondeu, mastigando as palavras: — “Sinto muito, mas também não pode ser!” Dona Celina ficou séria. O jovem levantou-se de vista baixa, articulando à meia-voz: — “É, minha senhora, que eu moro no Hospício!…” E antes que a dona da casa vencesse a estupefação, ele concluiu, despedindo-se: — “Hoje, foi a minha tarde de folga!”

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Good deeds of Dom Pedro II

Below I’ve translated a few stories of good deeds performed by the royal family, principally D. Pedro II, during their reign. The stories come from Revista da Semana (Jan. 1st, 1921). I’ve titled each story, minus the first one which already had a title.

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Here are a few topics – many of which have yet to be published – that demonstrate the social and human conduct of the distinguished Emperial Family of Brazil. […] the Brazilian dynasty never knew how to distinguish between the rich and the poor, white or black. All were equal in the judgement and hearts of His Majesty and Her Highness.

Master and Servant

One time, D. Pedro II heard that one of his Palace’s male servants was very sick. His Majesty (H.M.) soon wished to know the man’s residency.

– My Lord would like someone to go there? – asked a valet. – If H.M. wishes, one of my helpers can bring the sick man the news that H.M. has taken interest with his state of health…

The Emperor smiled.
– No, my dear man, it is I that wants to see him.

And, later that evening, having learned of the residence of the servant, the Emperor ascended the hill of the Castle. Finding the sick man in a hopeless state, H.M. allowed him to be at his side, attending to him during his last moments and placing in the man’s hands himself, a candle.

“The Old Man and the Monarch”

One morning, strolling around at the Largo do Paço (Praça XV), the Emperor came across an old black beggar, who had held out his hand.

The man groaned:
– The one who is asking is a servant of the country! I spilled blood for Brazil in Paraguay! And the government leaves me in misery!

The black man did not recognize Dom Pedro II.

H.M. approached him:
– You were a volunteer?
– Yes, sir.

And, showing his chest, barely covered by a ripped up jacket:
– Here is the ribbon. Here is the war metal. The government, however, isn’t bothered by this!

D. Pedro II, moved by the story, asked:
– And you think the Emperor is capable of supporting the abandonment of those who serve their country?

The black man turned to him, looked at the monarch – who he still had not recognized – with an air of disdain and quickly responded:
– If you ask such a thing, it is because you don’t know the Old Man! The Emperor has a big heart. If he were able to, none of us, who have been in Paraguay, would have reason to complain about a thing!

D. Pedro II put a coin in the hands of the black man and then walked away.

On the following day, the ex-volunteer was placed in one of the servant’s quaters of the Palace, where he stayed until his death.

“Entrudo”

The Emperor loved the entrudo (aka, shrovetide), to which he surrendered himself, many times, in Petropolis. Only…he did not wish for others to get him wet. As it were, he made many people make limões, full of violets, to ‘battle’ with H.M.

“Princess Isabel and the Viscount”

D. Isabel would hold, on a weekly basis, open court. She would receive people, by order of arrival, according to notes that one of her chambermaids would bring her.

It was there that one day, during one of the Princess’ open courts, that a nobleman in a rush, had pushed his way through the line and approached the Princess.

The Princess, very delicately, inquired with her chambermaid:
– Is it the Viscount’s turn?…
– No, my Lady, the Viscount was the last to enter the line.

And D. Isabel, who only had common people in front of her, said:
– Then, Mr. Viscount, do me the favor of waiting your turn…

Predictions – Rio in 100 years

Screen Shot 2014-03-20 at 5.50.46 PM“In the year two-thousand. — Prophetic photograph of what Rio will be like at its 5th centennial”

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The text images that follow, from the May 20th (1900) edition of Revista da Semana, go on to describe how Rio will be 100 years from then but, being that it’s antiquated Portuguese, I preferred to just post the text as is. What I will also leave you with are some choice excerpts. I’ll put a X next to the incorrect predictions, (a √ next to the correct ones,) and nothing if I don’t know how to answer. 

Χ – Rio’s avenues will be way better than the Champs-Élysées in Paris (not quite)
Χ – Rua do Ouvidor will be nothing but a memory (still there, luckily)
Χ – Rio will have 1.5 million residents (currently 6.5 million)
Χ – Women won’t say ugly things like “vi elle”, “qui home”, “me deixe”, “tá bom”
Χ – Botafogo, with its lovely bay, will attract tourists from the world over (it fell short)
Χ – By 1940, yellow fever will be gone (…nope)
– Morally, Brazilians will have the same defects, vices and passions as in 1900
Χ – In commerce and industry, there’ll be big thieves who cheat the public
– In the press, there’ll be illiterate writers and journalists for sale
– The city still won’t have money to pay its employees
Χ – The only ugly thing left in the city will be the Mangue canal (still there)

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