Carioca do anno 2000

A tale about how Cariocas will live in the year 2000 (RdS, Jan 15, 1927). Written by Saul de Navarro, pen name of Capixaba writer Álvaro Henrique Moreira de Souza.

Um conto sobre como os cariocas iam viver no ano 2000, escrito em 1927. Clique para aumentar.

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“Descendo de um aeromovel, que pousou, com elegancia de passaro, no terraço amplo, situado no 58º andar do Palace-Hotel da Tijuca, cuja floresta fôra convertida em parque nacional, Mme. Borboleta Simões dirigiu-se ao seu apartamento. O marido atual (já era o quinto do anno, pela extrema liberalidade do divorcio…) a esperava com a maior calma e paciencia, lendo a edição das 12 horas de O Jornal, emquanto ouvia, pelo relogio radio-phonico, um concerto, executado em Tokio, com programma de musicas classicas brasileiras: chôros e serestas de Villa-Lôbos.

Mme. Borboleta chegou lepida e risonha, tendo ainda a caricia do mar pelo banho que tomára, momentos antes, no grande balneario de Guaratiba, a praia favorita da elegancia carioca do seculo XXI. Depois de dar um beijo rapido no esposo amavel e displicente, entrou nos seus aposentos particulares, expedindo ordens ao pessoal encarregado de sua toilette. E logo após, deitada num largo divan de borracha, cujo ar comprimido fôra renovado pela simples apertura de um botão electrico, tirou a cabelleira postiça — uma bella peruca azul de pennugem de passaros do Amazonas — deixando a sua deliciosa calva á mostra…

Estava algo fatigada, porque tivera grande trabalho em salvar num movimento de piedade feminina, o seu 1º marido, que por um triz não morrera afogado quando se banhava naquella manhã esplendida de verão: tomou uma injecção de somnol e segundos depois estava adormecida serenamente. Era durante o seu repouso diario de duas horas (a sua noite de descanso) que se fazia a sua complicada toilette. O artista japonez Fu-Lito fazia-lhe, a nankim, o desenho subtil das sobrancelhas e a pintura de seu rosto, num requinte de maquillage. A manicura ia, ao mesmo tempo, tratando-lhe as unhas, emquanto a pedicura se entregava ao amanho dos pés pequenos e alvos.

Feito esse trabalho delicado e minudente, uma esponja, embebida em finas essencias, fazia a hygiene do corpo, que, estando enxuto, recebia então a veste da ultima moda; um decorador paulista estylizava nos seios, espaduas etc. motivos floraes, como si estivesse a traça paisagens na Lua…

O marido, o engenheiro Simões, billionario pela concessãõ das minas petroliferas de Alagoas, gastava mil cruzeiros nesse capricho diario, durante o qual, para matar o tempo. lia autores novecentistas — epigrammas de Ronald e poemas bravios de Catullo — quando não se deixava ficar nos braços de Morpheu — uma injecção de somnol, formula do saudoso e notavel Prof. Austregésilo, do seculo passado.

Mme. Borboleta levantou-se ás 14 horas, para ter tempo de ir á Camara, a fim de cumprir o seu dever civico de representante do Acre, principalmente porque era relatora do orçamento da Aviação. Olhou-se no espelho oblongo e ficou satisfeita com a sua toilette do dia: a pintura bizarra de seu vestido symbolico suppria, admiravelmente, a ausencia capillar em seu corpo hellenico á guisa de uma estatua dynamizada e maravilhosa.

Chegou ao parlamento justamente na hora da votação do seu orçamento, tendo ainda tempo de defender o augmento de alguns milhões de cruzeiros para novas linhas de communicação aérea e responder, com vantagem e logica, aos discursos da esquerda, composta de mulheres velhas e solteironas, ainda conservadoras e devotas do regimen republicano abolido, quando o Brasil se compunha apenas de 20 Estados federados e o Rio de Janeiro não era ainda a séde da grande feminocracia latina como capital da Republica Sul Americana e a maior potencia do mundo.

Os orçamentos foram votados numa sessão estafante de 30 minutos, pela obstrucção de alguns discursos das esquerdistas, que combatiam o deficit — mal chronico das finanças nacionaes — e profligavam as caudas orçamentarias.

Depois do sacrificio feito á Patria, por força de seu mandato, foi almoçar, com a leader da maioria Mme. Veiga, no restaurante de luxo mais proximo: o “Retiro”, em Petropolis, accessivel pelo vôo de alguns minutos, em omnibus aéreo, embora não o fosse a qualquer bolsa, pelo preço elevado…

O cardapio agradou ao appetite das duas damas influentes: ovos de andorinha, sumo de fructas e sorvetes do Polo Norte, servido por esquimaus trajados a rigor.

Depois do leve repasto, accenderam os cigarrilhos de fumo aromatico e tomaram algumas gotas de café, bebida de luxo vendida em dóses minimas, por effeito da valorisação iniciada um seculo antes…

Fazia-se ouvir um jazz de arapongas, grillos e cigarras…

— Vaes hoje ao chá dansante em Buenos Aires? — perguntou Mme. Veiga á sua graciosa companheira.

— Não sei ainda. Tenho um compromisso…politico para as vinte e duas horas em S. Paulo.

— Mas a festa promette ser optima. Não leste o programma publicado na 12.a edição do Radio-Jornal?

— Não.

— É um chá que vae ficar celebre: imagina tu que a presidenta da Republica da Europa, Mrs. Kingston, foi especialmente convidada e se comprometteu a comparecer, mandando apresentar o seu hiate aéreo.

— É possivel que vá, então. Adiarei o meu encontro politico para amanhã… — disse Mme. Borboleta, num sorriso de malicia.

Minutos após estavam de volta, regressando ao Rio numa baratinha alada de Mme. Veiga, desembarcando na torre da praça circular Washington Luis e tomando a avenida Santos Dumont, que ligava Guaratiba ao Pharoux, transformado num parque de diversões. Beijaram-se despedindo-se. A tarde estava deslumbrante e amena, pois a canicula de Dezembro era combatida pela viração que soprava da Guanabara e pelos colossaes ventiladores electricos collocados na via publica.”

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